Quinta-feira, 9 de Maio de 2013

cinco segundos de silencio

tenho lábios, braços, dentes. metros quadrados de pele. músculos engenhosamente cúmplices da mecânica irrequieta dos ossos. tenho sentido os sentidos. há luz. a noite tarda e cheira a fogo e pólen. ainda não queima o sol. a pele, menos coberta de tecidos, por vezes arrepia-se, surpreende-se. é talvez a minha forma de escutar o sangue, de lamber os dentes e engolir saliva, de olhar como se comesse pétalas, devagar. ainda não explodiu o verão e já ferve tudo dentro. talvez eu seja sôfrego ou deseje demasiado algo que só conheço pelo nome simples, repetido e óbvio: animal. consciente e humano, ao ponto de escrever o que antes de pensar senti, quero observar, como a um eclodir, uma predação, um florir, as forças no meu corpo que outro corpo reconheça e deseje, em franca perplexidade. como se, de facto, houvesse um animal que nos pudesse espantar. um animal com a nossa forma, os músculos e ossos e órgãos todos que nos constituem. um bicho, de impulso, intuição e cio. tão ciente do seu comportamento, tão comprometido com as suas pulsões. que ainda tivesse instinto. isto ou uma desconhecida que olhasse para mim, colhendo no silêncio os sinais da minha vontade, aproximando-se de mim, e eu dela, e me beijasse. como se essa fosse a mais óbvia forma de aproximação e reconhecimento entre dois bichos humanos.

Quarta-feira, 8 de Maio de 2013

leve

Um beijo. Como um sorriso que escapou. Uma última gota, certeira, que o beiral guardou a seguir ao aguaceiro. E que atinge a pele por entre a roupa. A gota, fria. O sorriso, mútuo. O beijo, inesperado.

Quarta-feira, 1 de Maio de 2013

Pulmão

Um amigo faz bem à alma. Cada segundo abre-se em infinito. E um abraço cura as feridas do mundo, para que habitemos luz. Basta uma palavra acentuada com um sorriso, um silêncio atento, um riso partilhado, uma lágrima que não foi desperdiçada. E a seguir respira-se melhor o ar deste mundo complexo e acelerado. Olhando e sentindo o que importa e nos fará a vida digna desse nome.

Quarta-feira, 24 de Abril de 2013

lábios

Sou bicho solar. A temperatura acende na pele o que estava latente. O ar é um fluído e eu percorro o espaço como depois de mergulhar. A atmosfera é uma presença, embebida de sol. Apetece o ar, livre como são as coisas que interessam no mundo. E lábios. E água. Mel e pólen. O sal depois de regressar do mar. Apetece outro corpo de temperatura ligeiramente diferente. O arrepio de um banho noturno, muito antes de chegar o verão.  Alimentar a pele de sol e beijos, vesti-la assim, de luz e calor corporal. Sou da luz. E de quem gostar de beijos com sabor a ribeiro, a horizonte, a asa.

Sexta-feira, 19 de Abril de 2013

the wind is a an abstract hairstylist

O rosto acariciado em diagonais ondulantes. O vento pega nas madeixas de cabelo, namora-lhes o comprimento, toca na pele por seu intermédio. Como se desejasse ter dedos.

Domingo, 14 de Abril de 2013











test drive

Parece um banco com rodas. Retirado de um local onde houvesse mais passageiros. Feito à medida do rapaz sentado. Ou afinal pequeno demais. Faço a curva e passo para o outro lado da rua enquanto desço. O rapaz, afinal talvez já não uma criança, fala sozinho como se incitasse a cadeira. Como se faria a um animal, um burro ou um cavalo. As mãos de lado, a segurar-se ao assento, os pés demasiado próximos do chão, passos pequenos a dar balanço, mesmo antes da descida. Olho ainda, antes de seguir o meu caminho. A cadeira tem pegas, além de rodas. É um carrinho de bebé, muito velho. E as rodas, afinal, não lidaram bem com a descida. Nem a súbita velocidade. O sorriso do rapaz, ainda alheado e firme, dá lugar a um olhar mais vago. Enquanto o rapaz se levanta, travando com dois passos rápidos, e o carrinho de bebé tomba, já eu passo por ele, a caminho da minha vida. E foi vê-lo assim, de pé, como quem tem idade para empurrar e não para se sentar num carrinho de bebé, que deu sentido, ou retirou, ao que tinha acabado de se passar ao meu lado. Quase percebi, mais atento, as palavras que proferia, quando nos afastámos.

Sábado, 13 de Abril de 2013

pequena cirurgia

A estagiária virou-se para a dermatologista sénior e pediu a confirmação, "pequena cirurgia?". Ficou marcado. Dia 27 de Julho, posso até tomar o pequeno-almoço, a anestesia é local. Da minha pele será removido este pequeno sinal preto, em forma de coração. Antes que se torne ameaça. E antes que eu percebesse o que era, a bela estagiária de cabelos negros frisados, fez o diagnóstico relâmpago, tão fácil e banal. Está marcada a remoção. Sem dor nem drama, durante o verão. Sim, há esta ameaça metafórica. Esta proximidade de significados. Quais as marcas na minha pele, no meu coração, da tua presença tão ténue e fugidia? E porque insistes em remover-te? Provocas mais dor, com o medo de sofrer, do que talvez vivendo a sério, enfrentando de uma vez a possibilidade de ser feliz. Disse-te uma vez, ainda tínhamos nos lábios o sabor um do outro, que não ia ficar para sempre disponível, à mercê das tuas hesitações. Neste momento, quase nem posso chamar-lhe hesitações. Porque me dás a sensação de já teres tomado a decisão de ficares do lado de lá dessa barreira. E é como se afastasses a primavera, acalentando apenas relento. Dás-me vontade de ir procurar outro calor. Uma voz, um olhar, um corpo que me inspire fogueira e não vento gélido. Somos livres. Para que no corpo de um o corpo do outro persista é preciso beijar, amá-lo com a boca e o sexo. Deixar-lhe marcas como as ondas a uma praia. Sempre e cada vez mais. Não é com o abandono que se constrói. Estou sentado, a apertar as sandálias. Mais uma vez. Haverá alguém que me queira lavar os pés do pó do caminho, alguém que queira que as minhas mãos lhe lavem a pele, como no filme que não chegaste a ver. E tudo o mais que possa dizer, é apenas incitar a dor, num exercício inútil.